domingo, 19 de junho de 2011

Te cuida






Chegou cedo. Meia hora antes do combinado. Era a primeira vez que terminaria um relacionamento tão sério. Esperou que ela chegasse. E pediu uma cerveja. No som do bar tocava Chico Buarque: “Tinha cá pra mim que agora sim eu vivia enfim um grande amor... Mentira!”. Estava aos prantos (por dentro).

Enfim, ela chegou. Pontualíssima e surpresa por encontrá-lo à sua espera. É que ele tinha a terrível mania de chegar atrasado a todos os compromissos. Quanto tudo ainda estava bem e eles falavam em casamento, ela sempre dizia que ele chegaria depois dela.

Mas ele não atrasou. Não dessa vez. Estava lá. Sentado e aos prantos (por dentro) e morrendo de pena dos dois.

“Todo fim infeliz não deixa de ser um sinal de incompetência.” Pensou ele. Aprendeu isso com um amigo, numa farra em que o tal amigo comemorava por ter esquecido a ex-amada.

Ela sentou e pediu uma dose de Campari. Ele riu. Não entendia como alguém poderia gostar daquilo.

E ele, enfim, pôs-se a falar. Pensou em terminar com um simples “te cuida”, como ensinou Martha Medeiros, mas mudou de idéia. Tantos planos e sonhos não poderiam terminar com um simples te cuida. Por isso, aliás, é que ele a chamou pra conversar. Quereria explicar melhor o porquê do fim. Não queria ser o covarde que terminou por telefone, depois de uma briga. Por fim, pôs-se a falar:

- Olha, - disse aos prantos (por dentro) - posso não saber o que se passa em seus pensamentos ou em seu coração. Eu não leio corações, muito menos pensamentos. Leio poesias, cartas e teu olhar de não querer mais.

- Eu quero que saiba – aos prantos (a ponto de externar) - que nessa baixura do campeonato pouco importa o que podemos sentir.  Sabe, eu vi teu olhar de não querer mais, de não amar mais. Eu vi.

- Eu fiz, e você sabe, fiz tudo pra evitar seus ciúmes. Sem festas, sem farras, sem bares com os amigos, mas não deu e nessa baixura do campeonato pouco importa. Eu vi, eu li teu olhar de “adeus, vá pra não voltar!”. - Disse aos prantos, na frente de todos no bar e morrendo de pena dos dois.

- Eu quis e você sabe, sabe tão bem quanto eu, que eu fiz o que pude e o que você quis, mas nessa baixura do campeonato pouco importa. Veja, leia meu olhar de quem tem coração que não se contenta mais com as tuas reclamações. - Disse aos prantos e soluços e morrendo de pena dos dois.

De repente, silêncio. Depois, cumprimentos frios e tristes. Um quase “Adeus, e dessa vez é pra valer”.

Ela o olhou e antes de sair teve ação apenas pra dizer: “Te cuida!”.

PS: “[...] Não chore! Eu quero, eu posso, eu fiz, eu quis [...] Seja feliz! [...]” (Torquato Neto).

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