quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Alta noite




Liga às três da madrugada na maior fossa. No maior choro. Pobre amigo. “Ela me deixou, ela me deixou”, dizia. Em prantos. Segundo ele, ela ainda confessou o ‘crime’. “Não foi por mal, foi por falta de amor. Do teu amor. Era pra ser só uma aventura. Me apeguei”.

Pobre amigo. Fui vê-lo e encontrei-o cantando alto acompanhado por uma garrafa de Uísque. Cantava Cartola “ouça-me bem, amor, preste atenção, o mundo é um moinho, vai triturar teus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir tuas ilusões a pó”.

Pobre amigo. “Mermão, deixe de coisa. Trate de esquecê-la. Vai ficar feito besta por alguém que te trocou por um apego?”. Quase sem ação, teve ação apenas pra mais uma dose. Um breve silêncio até que ele teve a brilhante idéia de cantar Chico Buarque.

“A Rita levou meu sorriso. No sorriso dela, meu assunto”. Mais uma dose. Decidi acompanhá-lo. “Ela ainda levou aquele livro do Zózimo Tavares. Que covardia! Foi presente da minha mãe, cara.”

Pobre amigo. Devia prever que todo amor dedicado não seria recompensado com amor. Devia prever que o coração de sua (ex) amada voa mais que avião. Livrou-se de uma fria: terminaram antes que ela o traísse em plena lua de mel.

Perguntei se ela demonstrava algum arrependimento e ele disse que não. “Qual, amigo! Parecia estar tomando Activia enquanto caminhava pra fora de casa”. Pelo menos o bom humor do meu pobre amigo parecia estar de volta.

“Moço – comecei – essa mulher não vale a panelada que a gente come naquele barzinho no Dirceu. Não sofra, não beba muita cachaça e esqueça essa mulher. Depressa.”

Pobre amigo! Precisa ouvir aquela canção do Torquato Neto e Luiz Melodia, ‘começar pelo recomeço’. “Pra que tanto lamento pelo abandono de quem não lhe quer bem?” Perguntei!

Ele ria e cantava. Tudo ao mesmo tempo. "Se ela me deixou, a dor é minha só, não é de mais ninguém!". 

PS: “[...] Partiu com aquela pessoa paia! Partiu com uma pessoa mais feia do que eu [...]” – E pôs-se a rir enquanto cantava Validuaté.

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