quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Desalento



Um bêbado pedindo esmola. Péssimo jeito de terminar a noite. Ou não! Além da esmola, deu o que lhe restava do Uísque. Andava com uma garrafinha dessas de bolso.

Indiferente a tudo, acabara de sair de uma festa de casamento de um amigo. Tempos bons os atuais. As pessoas ainda acreditam no amor. E têm mais é que acreditar mesmo. Ah, o amor!

O amigo estava feliz. Isso é o que importa. E por isso mesmo não importunou ninguém. Não queria estragar a felicidade do amigo. Que diferença faria dizer que levou um fora no dia do casamento de um amigo? Pensava nisso e acreditava que o amigo ficaria triste por ele.

Caminhava pela rua cantarolando Chico Buarque. Morava perto do local da festa, voltar a pé lhe pareceu uma ótima escolha. Quase bêbado, preferiu não voltar dirigindo, que seu pai levasse o carro. Também não aceitou carona. Voltar sozinho e a pé e cantarolando Chico Buarque.

“Sim, vai! Diz assim: Que eu chorei que eu morri de arrependimento, que o meu desalento já não tem mais fim.”

O mendigo o acompanhou pra devolver a garrafa. “Pode ficar, moço!” – disse. “Mas não tem mais nada! Pra que eu vou querer?” – respondeu. Que infortúnio!

 Mendigo quis saber de onde vinha. De uma festa, ora! Que mais poderia lhe responder. O mendigo perguntou por que o ar de tristeza e por que alguém tão bem vestido e aparentemente generoso voltava sozinho pra casa.

Pôs-se a dá explicações ao mendigo. Caminhavam e de quando em vez cantarolavam Chico Buarque. Era um mendigo entendido de boa música. Avistaram um bar aberto e pediram uma cerveja e algo pro tal mendigo comer.

Falou da sua desilusão de entusiasmo, do fora que levou no início da festa de casamento do amigo, de quase tudo. O mendigo, faminto e atento, ouvia tudo.

“Que absurdo! Você lamenta por ter levado um fora de alguém que nem te ama mais. Pensei que seria mais interessante correr atrás de quem nos ama. Não perca seu tempo atrás de quem não te dá importância. Qual o sentido de tanto lamento? Você quer ter desamor, é isso?” Disse o mendigo. Antes de dizer que não era mendigo.

O tal mendigo foi “erroneamente” tratado o tempo todo como um mendigo sem ser um. Ele era um cara do Ceará que veio pra Teresina fazer uns exames e acabou ficando sem grana pra voltar pra casa. Falou de sua vida, dos filhos, esposa e que o seu lamento era por não ter a pessoa que ama por perto, diferente do novo “amigo” que lamentava querendo ter desamor. Lamentava querendo alguém que não o amava.

Antes de ir embora, chamou o mendigo, Paulo era seu nome, e lhe deu grana pra bancar alguns exames que restavam e pra comprar uma passagem pro Ceará. Um taxi levou o mendigo a um hotel, onde poderia ficar até depois do almoço.

E ele foi embora a pé, caminhando e cantando Chico Buarque.

PS: “Tinha cá pra mim que agora sim eu vivia enfim um grande amor. Mentira!” (Chico Buarque)

Um comentário:

Lorranny Berto. disse...

Tipo, o que dizer?..

Primeiro, que surpresa boa você! Por um momento pelo seu comentário no meu texto, encantador em meio a tantos outros que pouco discutem realmente o que está ou de que forma foi escrito. Gostei muito da comparação com a música. Obrigada.

Eu to numa fase meio carente de debates. Com uma necessidade de sentar na varanda e discutir seriedades mescladas a risos característicos de qualquer amizade. Não preciso de nada formal, só de conteúdo e simplicidade, entende?

E você me transmitiu isso. Não sei exatamente o porquê. Talvez pelo português correto ou por narrar uma história sem grandes preceitos, julgamentos ou ambições. Isso acabou por aninhar uma alma desalentada, por esta noite.
"Quem é mais sentimental que eu?".. ♪

E por fim, me ganhou mais ainda ao terminar o post com o "Samba do grande amor". Coincidência ou não, a cantarolei grande parte do dia :D