sexta-feira, 30 de março de 2012

Segunda edição





Quando você ligou, o rádio estava ligado em uma rádio qualquer que tocava Elvis Presley. Eu tinha saído à noite com os amigos e tinha muito sono de manhã.

Nesses dias sem te ver pensei que poderia te esquecer. Quanta ingenuidade! De certo modo, eu estava prestes a me convencer de que não daríamos certo. Temos tudo pra dar errado. Sabemos disso.

Elvis cantava algo sobre mentes desconfiadas.

Nossos segredos e aflições e tantas frustrações em romances anteriores atrapalham a gente. Acho bonito quando falo alguns pormenores da minha vida amorosa e você sofre de ciúmes retrospectivos. Tudo provocação, garota. Mas você... Ah, você fala que não acredita no que eu digo, não acredita nas minhas promessas e eu fico ridiculamente abalado. Às vezes penso que você também está a provocar.

Tuas histórias são boas, interessantes. Você floreia muito suas histórias e eu fico comovido de lembrar você cantando Nei Lisboa em um telefonema às quatro da manhã. “Quê que eu vou fazer pra te esquecer?”. E eu fico feito besta em busca de entender como podemos ser tão errados, como temos tanto pra dar errado e ainda conseguimos a sobrevivência desse romance.

Os opostos se atraem. É isso? Você, como se fosse música, é tão Paris e eu sou um Zé Qualquer. Um atrapalhado que não sabe a hora certa pra telefonar, que não sabe se um dia conseguirá tirar você da memória em momentos de saudade e raiva. Sorte sua se eu não te esquecer.

Agora, no rádio, toca aquela música que é nossa cara, aquela música que o Maurício Baia fez pra gente. “E me ameaça quando diz: ‘eu vou embora’. Ora, vá! Você tem seu direito de ir e vir.”

Quase sempre digo tchau e você sai e fala pra eu te ligar se eu decidir sobre o que fazer da minha vida. E você diz pra eu seguir meu caminho e quando você chega à esquina eu te ligo. Parece que você é o meu próprio caminho. Nessas horas em que ficamos prestes a nos deixarmos é que descobrimos que nos amamos. Somos dois atrapalhados. Dispostos, nos atraímos e as coisas parecem voltar ao seu lugar.

Quando você me ligou pra falar que estava triste e com saudade, eu quis correr pra você e me jogar em teus braços, te fazer cafuné e um café. Eu também vivo pra morrer de saudades e a gente vai vivendo assim, brigando. E apesar de tudo, vivemos felizes para sempre enquanto os perdões puderem nos unir. Ainda que esse para sempre comece numa sexta feira de madrugada e acabe sábado à tarde quando mergulhamos em um sofá e brigamos por causa do filme. Você está sempre disposta a ver ‘Sem reservas’, pela milésima vez.

E seguimos assim, brigando e torcendo para que as reconciliações tragam sempre a felicidade. Nós somos tão errados. E tão vaidosos. E nos perdemos em nosso orgulho. Mas tudo, tudo, sempre volta ao seu lugar quando nos encontramos. E assim seguimos, perdoando.

O perdão é a força da razão, amor.

Amarra o teu cachorro – ele me odeia – e põe um Vitor Ramil no rádio que eu chego a tempo de bebermos um vinho nessas tuas taças de cristal que a tua vó te deu. Cantarola aquela música que a gente ria, please! Ah, prepara um café, por favor. Por amor. Por amor?

P.s.: “Não iremos nos arrepender de tudo, de tudo.” (Volver).

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