terça-feira, 10 de abril de 2012

Ele e ela, a Estela.




A noite e o céu desabam e ele permanece inerte. Imóvel no escuro do quarto. Pensa na vida. Parece! E se esconde de carinho e qualquer manifestação de afeto. Mas fala que está apenas pensando na vida.

A música no quarto e o barulho das ruas invadem a casa. Não tem muito que pensar e é tomado por uma terrível vontade de não perdoar, de jogar tudo pro alto. Mas não há o que perdoar. Não há nada errado. Nada além da mania de achar que tudo está errado, que nada vai dar certo. E se esconde. Foge do mundo.

Esquecê-la deveria estar fora de questão. Acusações infantis e palavras tão duras devem ser perdoadas e esquecidas. Mas ele não tem o que perdoar. Foi ele quem gritou e quem fez acusações infantis. Foi ele que falou em ser feliz sozinho.

Às vezes é preciso tirar um pouco os pés do chão. Ir pra todos os lados e arriscar de menos e se esconder dos bons sentimentos alheios só levou ele até ali, naquele quarto escuro, onde pensa na vida. Pensar na vida pra quê? E por que tanto tempo? E os dias azuis? Caio F. Abreu chegou a dizer que o mundo contemporâneo conduz o ser humano a uma grande solidão. Pura verdade!

O quarto poderia ser um refúgio dos dois, mas ele está só. Sem dias azuis. E ela, do outro lado da cidade conversa com as amigas, tenta ouvir algumas amenidades que possam deixa-la menos triste. Ela ainda prevê alguns dias bons ao lado dele. Ele pediu um tempo e fica testando alguns mundos, alguma solidão e não sabe se chegará a algum lugar. Parece disposto a entregar-se ao desamparo, que pra ele é uma coisa normal.

Dos barulhos da rua, a voz de um bêbado chama um pouco sua atenção. Poderia ligar a TV, mas está um pouco distante, ele continua imóvel e sem o controle. Sem os controles. Perdeu o da TV e parece disposto a perder cada vez mais o controle da situação, parece disposto a dormir sozinho. Horas em escuro, a espera de o seu mundo desabar.

As ruas ficam vazias, as saudades aparecem, os bêbados já estão em suas casas ou sarjetas, os amantes estão cansados, os bares fecham e o dia se prepara para amanhecer. E ele não liga pra ela, até pensou, mas desistiu. Talvez, por muitos instantes, sua idéia era desistir deles. Do que sentiam um pelo outro.

Antes de deitar, chega a cogitar a possibilidade de ter cometido exageros, não havia motivos para pedidos de perdão, ela não fez nada errado. Ele errou, ele exagerou e fez acusações infantis. As palavras duras foram ditas por ele. Mas ele é vaidoso e essa vaidade parece não ter fim. Pensa que o fato de ser novo na vida lhe dará tempo suficiente para esquecê-la. Ora! O tempo não muda as coisas de lugar, não se esquece, por mais que insista nesse “filme”, ela estará sempre em alguma esquina do seu coração, não vai ser fácil esquecê-la, melhor seria procurá-la ou fazer-se procurado.

E quando ele se prepara pra esquecer algumas coisas e finalmente dormir, uma voz começa a fazer barulho. Começa a dizer que voltou e que não consegue esquecê-lo e que ele deve estar com ela todo dia e que eles merecem uma segunda chance pela milésima vez e que não podem brincar de recomeçar. Ele grita de volta, quer entender porque eles não se acertam de vez?! Porque não ficam em paz?! E ele sabe que deveriam se casar.

E voltam e tentam se acertar, até que a próxima briga os separe. Mas eles e os vizinhos e amigos sabem que as brigas nunca resistem à uma madrugada de barulho na janela dele. Ou dela. As brigas não resistem ao amor. Não resistem aos braços passeando por outros braços em uma cama. Não resistem à certeza de que é melhor ser feliz ao lado de alguém. Brigas não resistem aos sonhos.

Ficar trancado em casa não engana a solidão, pelo contrário, leva a se entregar à solidão.

P.s.: “E dessa vez acabaram com certeza... mas voltaram outra vez”. (Maglore).

Um comentário:

Bianca disse...

Lindo o texto. E, nossa, é exatamente aquilo que você disse no comentário que deixou no meu blog. Eu me sinto assim sabe, e me deixa muito contente saber que outras pessoas me entendem! valeu mesmo. Seguindo aqui (: