sábado, 14 de abril de 2012

Tempo de sair do lugar






Era o que chamava de tempo de delicadeza. Andava triste e acreditando que era tempo de qualquer tristeza acabar. Noites escuras passadas em claro. Noites estranhas passadas a sós. Acreditava que era chegada a hora de ter noites brancas, e ria por não saber o que isso queria dizer.

Era o que chamava de tempo de carinhos. Tinha muito carinho acumulado, precisava dar a alguém, poderia ser em forma de abraços. Tinha muito sono acumulado, precisava perguntar a alguém como fazer pra recuperar esse sono. Noites escuras passadas em claro.

Vez ou outra era tempo de aflição. Tinha algumas frustrações acumuladas, precisava livrar-se delas. Não sabia como. Isso era causa das noites escuras passadas em claro. Tinha coisas não resolvidas. Ou mal resolvidas, não sabia. E se afligia. E isso o afligia.

Mais dia menos noite poderia chegar o tempo de alegrias. De emoções fortes. Queria voltar aos tempos de serenata e cantar em frente à janela. Iria até a casa dela. Ai, ai! Falar do amor por ela. Ai, ai! E se ela não estiver esperando na janela? E se não tiver janela na casa dela? Vixe!

De quando em vez poderia ser tempo de sonhos. Sonho de um futuro melhor, de um país mais justo, de tristeza indo embora levando malas pra nunca mais voltar. Sonho de um tempo bom ao lado de quem ama.

Era o que chamava de tempo de saudades – cada um carrega um pedaço de saudade e geralmente leva o peso que pode carregar. Há, de certo, quem exagere e queira carregar muitas. Enfim, tempo de saudade é olhar fotografias, fazer ligações, ler cartas não enviadas e mensagens recebidas. E até sentir certa saudade de quando gastava tempo da forma errada. Pelo menos diziam que era de forma errada. E ria.

Era o que chamava de tempo de ler e entender. Ler contos e romances e artigos de Caio. F. Abreu e tentar entender porque alguém tão genial é visto por muitos apenas como um frasista. Gente estúpida essa que não lê outdoor e cita Caio Abreu, Lispector e Machado de Assis.

Era o que chamava de tempo de se livrar de vaidades e de orgulhos idiotas. Era tempo de perdões e de aprender como se dança o baião. Tempo de sair do lugar, de sair do marasmo que só leva até algum lugar que pode ser visto como a morada do tédio.

Não se vive só de saudade. É preciso se desfazer – da melhor maneira possível – dos carinhos acumulados, é preciso matar a saudade, é preciso ler mais, fazer coisas por um mundo mais justo e é preciso sonhar muito e realizar ainda mais. É preciso livrar-se das aflições, das vaidades, do orgulho, dos perdões esboçados e é preciso aprender como se dança o baião.

E é preciso dizer que ama aquela morena chata. Chata no bom sentido, claro.

P.s.: “Já é tempo de sair do lugar, já é tempo da tristeza acabar, já é tempo de sair do lugar, já é tempo da alegria girar.” (Validuaté).

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