sábado, 5 de maio de 2012

Futebol e um caso de amor (Futebol é um caso de amor)

Palmeiras eliminado pelo Goiás em 2010, na Sul Americana.




Valdivia se mandava pelo meio de campo e ensaiava um contra-ataque depois de uma roubada de bola e passe do Assunção. Fez-se uma surpresa geral no bar porque Assunção não é tão bom em roubada de bola.

Eu gesticulava. Ora pro garçom trazer mais uma cerveja, ora pra xingar o cara que insistia em ficar na frente da TV e me atrapalhar a acompanhar o jogo. Maikon Leite pediu a bola, Valdivia tocou, Maikon correu feito desesperado, escorregou como sempre e perdeu a bola. Luan estava sozinho na área, mais solitário que a modelo magrela na passarela do concurso Garota Escolão do Parque Piauí. Ponte que partiu! Palmeiras perdeu a chance de fazer o gol da classificação.

Nesse exato momento – entre um palavrão desesperado lançado à TV em que Maikon Leite aparecia e um palavrão direcionado ao garçom que demorava – ela apareceu com sua carinha de garota mais problemática que as das histórias do Gabito Nunes.

Disse ter ido à minha casa. Disse não ter ficado surpresa de me encontrar em um bar. Não que eu seja um desses caras que vivem em bar, ela falava sobre o jogo, nunca fui chegado a assistir futebol em casa. Dizer palavrões sozinho é chato. Perder a paciência sozinho é chato. Comemorar um gol sozinho é ainda mais chato. E não ter com quem cornetar o time é mais chato que viver feito o carinha da música “Lígia”, do Tom Jobim e do Chico Buarque.

Ela começou a perguntar algumas coisas e parecia não perceber que àquele instante um diálogo era praticamente impossível. Assunção iria cobrar uma falta, o Palmeiras precisava de um gol e eu não tinha olhos pra nada além da TV. Não tinha ação pra nada além de xingar o cara que não saia da frente da TV. Gol! Golaço do Assunção. Gritei feito louco com direito a um abraço nela durante a comemoração.

Depois do gol e da minha comemoração, ela me olhou e disse que aquele foi o abraço mais sincero que lhe dei em todos os meses de namoro. Ficou sentindo menos raiva do futebol, percebeu que os sentimentos ficam à flor da pele e que me acompanhar no futebol seria bom pra ganhar mais abraços muito sinceros.

Durante todo o tempo que seguiu não pediu explicações sobre regras de impedimento, não perguntou por que Anderson Polga foi convocado pra copa de 2002. Não quis saber por que o Patrick era titular, também não quis saber por que o Felipe Scolari tem um sósia no banco de reservas, que vem a ser o Murtosa.

Não quis saber nada, apenas acompanhou meus sofrimentos, meus gestos, meu nervosismo e pediu pra eu parar de balançar a perna esquerda, mas já era tarde, pois o Palmeiras estava sendo pressionado e eu comecei a balançar a perna direita e ficava o tempo todo passando a mão no relógio.

Minutos depois o Palmeiras sofreu um gol. Aquele que desclassificou o time. Aquele que me fez encostar em seus ombros e chorar. Chorei muito mais do que quando brigamos uma vez e ela disse que não me aceitaria de volta. Ela não reclamou e talvez tenha até achado interessante a idéia de que o futebol deixa a gente mais sincero e mais à vontade pra dizer “você é meu grande amor. Eu te amo tanto quanto o meu time”.

Pelo amor que tenho pelo meu time é de se imaginar a felicidade dela a me ver comparando tal amor ao que sinto por ela. É amor a perder de vista.

P.s.: “E se a gente perder que seja derrota suada, sofrida, roubada, de mão beijada nem a pau! E se a gente ganhar que seja vitória disputada, merecida, conquistada, vou pro pau apostar na parte bacana do tal do amor”. (Jay Vaquer).

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