domingo, 17 de junho de 2012

Conversa de amigos






Cinco amigos, um bar, um violão, conversa fiada e músicas do Diogo Andrade, Roberto Carlos, Caetano e Nelson Gonçalves, que Mauro insistia em confundir com outro Nelson, o Rodrigues. Confusão perdoável. Eram dois gênios, lembrava Jurandir.

Depois de algumas semanas de muito trabalho e universidade, resolveram tirar um tempo pra conversarem. Lindomar vivia pra morrer de tristeza depois de ter seu amor posto em xeque e levar um fora. Era um choro atrás do outro, telefonemas tristes para os amigos, doses ordinárias de vinhos baratos e algumas cachaças e muita exposição às músicas do Ivan Lins, Leoni, Oswaldo Montenegro e o acústico do Eric Clapton. Mauro dizia que ele ia morrer de tanto ouvir essas músicas. Guilherme dizia que eram músicas de causar depressão em prozac.

Carolina, PhD em desilusões de entusiasmo, tentava dar moral. Dizia que ele deveria largar mão de sofrimento, que não pegava bem cair em prantos e que deveria parar de citar George Harrison e essa coisa de que aparentemente seu amor acabou e se foi sem nenhum aviso. Ninguém perde a capacidade de amar aos vinte e poucos anos. Ninguém se desfaz de sonhos aos vinte e poucos anos. Aos vinte e poucos anos é possível que se perca as ilusões esquerdistas, mas a capacidade de amar é imperdível.

Lindomar estava em pedaços, isso era visível em seu olhar, em sua mania de passar a mão sobre o nariz sempre que se esforçava pra não chorar. Ele sempre foi muito chapliniano, estava sempre entre o riso e a lágrima. Quando chegaram pediu que Mauro cantasse “detalhes”, do Roberto Carlos, e logo em seguida disse: “se outro flamenguista fã do Fábio Luciano aparecer na rua dela e isso trouxer saudades minhas, a culpa é dela”. E falou de quando a descreveu para os amigos cantando “And I Love her”.

Guilherme parecia ter certa irritação ao começar a falar com Lindomar. Era possível perceber quando ele pediu um minuto de atenção e começou com “Você está parecendo aqueles sujeitos que aparecem no clipe de Trilher e isso é horrível, cara. Sai da porra daquele quarto, vai pra rua, pra um bar, vai falar mal dos políticos, da vida, da cerveja quente, da música ruim, reclamar do seu time, do esquema tático do Mano Meneses e da zaga do teu Flamengo”.

Os amigos sabiam que pela primeira vez na vida Lindomar queria algo sério, algo equivalente aos mandatos de 30 presidentes com mandatos de cinco anos cada. E sabiam que, aparentemente, não seria dessa vez. Por isso diziam que ele precisava sair dessa fossa, tentar alguma reação, pois ficar em casa não levaria a nada.

Helena era mais tranquila e tentava encontrar uma solução mais harmoniosa para as coisas, acreditava muito em segundas chances e encorajava os amigos para essas tentativas de outras vezes.

“Você gosta dela, nós sabemos. Mas ela também gosta de você? Se você acha que vocês têm alguma chance, deixa de bobagem e vai procura-la, vai falar do teu amor, dos teus planos que você contava pra gente, fala que você queria fazer de vocês dois um sonho lindo, se é isso o que você quer vai lá.”, dizia Helena, praticamente implorando.

“Se ela disser não mais uma vez, aí, meu amigo, procure a mim e a todos os seus amigos e nós vamos te ouvir, te alegrar e tomar um porre e contar piadas ruins e cantar desafinados” completou Guilherme.

Os amigos diziam apoiá-lo em toda e qualquer situação e pediam que Lindomar fizesse qualquer coisa que o livrasse dos sofreres e que ele parasse de fazer merda. Eles sabiam que mais dia menos noite ele teria que aprender a viver sem ela. Ela era importante, mas não era o ar, não era essencial para que ele vivesse.

P.S.: “É, amigo, a vida não tá fácil. Desamparo é coisa tão normal.” (Diogo Andrade).

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