sexta-feira, 8 de junho de 2012

Vanessa e Oduvalzinho





“Esse teu amor não vale nada!” e assim desceu do trono e abriu mão de sua ternura. Não lhe era estranho que ela agisse assim, afinal sua ternura costumava ser esvoaçante. Fugidia. Poderia dizer até que nada era inesperado. De certa forma ele havia se preparado pra isso.

Ela parecia aflita, desceu do trono. “Deus também desce do céu”, ele pensou na música que ouviu mais cedo, antes de sair de casa. Enquanto ele ficava perdido, sem entender bem o que se passava, ela dizia alguns absurdos. Ela era dona da mania de achar que sempre tinha razão. Pelo menos gritava como se tivesse. Parecia um juiz do STF.

Ele estava morrendo de pena deles dois, essa era a verdade.

Aflita, ficava ainda mais bonita. Mas ele tentava a todo custo não ver beleza. Não depois do absurdo de ter seu amor posto em cheque. Assim, sem mais nem menos, pelo menos ele não se lembrava de ter feito nada.

Não entendia porque toda essa cena. Como poderia dizer que o amor dele não valia nada se foi ela quem pegou mania de ficar brincando com o coração alheio? Passou a enchê-lo de esperanças e depois, sem perceber, o deixava no chão. Descrente, o coração leva à ações que as razões desconhecem.

Noite passada, antes de ele sair pra festa de um amigo, era ela quem planejava casa com girassóis na varanda, pássaros e um grande jardim. Imaginava que formariam o mais bonito dos casais e logo em seguida estava a gritar que o amor dele não valia nada. Não dava pra acreditar nem mesmo entender.

Como não vale nada um amor que leva a ouvir os lamentos dela às quatro da manhã, embora ele tenha que acordar às seis da manhã pra ir trabalhar? Como não vale nada um amor que leva a fazer planos e a tentar equilíbrio no meio fio? Um amor que o levou a enfrentar os pais dela, sendo que o pai o interrogava a ponto de deixa-lo com medo.

Um amor que não impedia de ficar com ela quando ela estava na tensão de fim de mês, o que a deixava chata como um corintiano após eliminação em libertadores. Como não vale nada um amor que o levou a sair de casa, em meio a uma febre, pra comprar flores às três da tarde, em um calor de rachar catedrais? Como não vale nada um amor que o levou a sair de casa de madrugada, em uma noite de assombrosa chuva, pra ficar com ela porque ela estava com medo dos trovões?

Não foi sempre assim, é verdade. Ele vivia de dizer que coração de boêmio não tem dona e costumava sumir por uns dias e se perdia em festas e mais festas com os amigos e novas amigas, mas essa fase já passou e ele vivia de ficar sempre com ela. Ela sempre aceitava seus pedidos de desculpas e acreditava nas promessas de que isso não aconteceria outra vez.

Tentava saber se ela guardou essas mágoas por todo esse tempo como quem usa navalha para gravar palavras na pele.

Começou a acreditar que foi isso o que aconteceu. Os rancores ficaram gravados. Ela era dona de uma ternura fugidia, o que a deixava apta a expor cada um desses rancores que ficaram guardados. Correr pra casa e trancar-se no quarto eram meios de se esconder, de evitar que explodisse e dissesse coisas que pudessem leva-la ao arrependimento.

Frente a frente, olho no olho, ela perdoou todas as ausências dele e as chegadas fora de hora. Mas perdoar não é esquecer. Dessa vez as mágoas eram maiores, a soma de todas elas levou-a à aflição e aos gritos. Ele continuava sem saber o que fez dessa vez. E continuaria assim pelo menos até a hora em que ela parasse de dizer absurdos e resolvesse falar algo que fizesse sentido.

Ele, de fato, estava muito bêbado na noite anterior e não se lembrava de ter ficado com uma ex-namorada que reencontrou na festa de seu amigo. E em tempos de generalização de fotos, algumas desse reencontro foram tiradas e entregues à namorada dele.

P.S.: “Se botar teu amor na vitrine ele nem vai valer R$ 1,99”. (Gaby Amarantos).

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