sábado, 2 de março de 2013

Solidão, a faca de cortar corações II





Tem andado cheio de melancolias, com um vazio n'alma, com a cabeça pelas tabelas e a voz embargada quando lembra ou lembram deles dois. Deve ser por causa do vinho.
Tem suportado o desafio de viver sem ela. Tem sofrido, claro. Tem andado tristonho demais, mas sabe que a vida é longa e qualquer sofrer pode ser esquecido, superado. Vai esquecer. Sofrer deve levá-lo a aprendizados importantes.
Jamais pensou que sua vaidade lhe permitisse descer a ponto de passar por sofreres por quem não lhe quer bem. Sofrer, segundo ele, lhe fez perder orgulho e bondade e lhe fez esquecer alguns de seus talentos.
Em casa, caminha de um lado pro outro, lê jornais, revê as revistas de anos anteriores – os problemas são os mesmos: a corrupção, a economia, opositores cheios de fofuras com o governo, os temas abordados, os conselhos amorosos – nada muda.
Sabe que amar assusta quando faz com que nos curvemos às vontades alheias sem que pensemos nas consequências, tem percebido isso por esses dias em que se deu conta de sua devoção à ela.
Sabe, também, que no fim das contas nos damos conta que o método mais interessante de superação é viver – deixar o tempo passar! – e que com o passar do tempo, dias de sofrimento por quem não nos ama passam a ser vistos como dias infames  desses que não valem uma aspirina vencida. Se algum dia verá as coisas assim não sabe. Não sabe! O futuro dirá, só o tempo vai dar a calma necessária.
Hoje, os dias são prenhes de sofreres, mas mais dia, menos noite, tudo será azul e belo. Acredita que algum dia será visto com o respeito, a admiração, o carinho e o amor necessários. Enquanto esses dias não vêm, conta contos e aumenta pontos nos pés cortados com os cacos de copos de vinho que quebrou na sala, onde ainda tem resquícios da almofada que ela rasgou com a faca de cortar pão.
Do alto de sua tristeza, tenta recolher os cacos de seu coração que ela quebrou com a solidão, faca de cortar corações.
P.S.: “A solidão é fera, a solidão devora, é amiga das horas prima irmã do tempo.” (Alceu Valença)

Nenhum comentário: