terça-feira, 5 de agosto de 2014

Serenatas de amor






Perdeu a hora, mas conseguiu chegar a tempo de encontrá-la. E aquela situação parecia hit do Ritchie. Mas não tem importância, não faz muito sentido. Entre sem jeito e sem graça ele entrou na conversa sobre o esquema tático do Scolari na seleção Brasileira, assunto discutido com muito afinco por seu amigo Adalberto e um sujeito da mesa ao lado.  
Pra ele, o esquema tático da seleção com o Scolari era tão estranho quanto o Arnaldo Antunes gravar um DVD, em uma enfermaria, com doentes cantando seus sucessos mais populares. Estranho, porém aceitável em se tratando do Antunes. E em se tratando do Scolari. 
Em seguida Jurandir passou a ser o assunto. Quem, em sã consciência, contrataria uma banda formada por anões pra uma serenata? Nada contra anões, os amigos do Jurandir tinham até amigos que eram. “Ah, mas a música era legal!”, defendia-se, antes de falar que “pleaseforgive me”, era uma coisa beleza. “Vamos deixar isso pra lá, isso é coisa da semana passada, a gente veio pra comemorar aniversário”, dizia Helena como se fosse fácil esquecer que ela e Jurandir foram recebidos por Mariachis cantando ‘besame mucho’. Pior ainda: em um restaurante que não vendia nada de comida mexicana.  
Dalva quis saber se Helena não se assustou ou se zangou com a serenata e disse que se fosse com ela pularia o muro do vizinho e correria até o Qatar. Disse, ainda, não gostar dessas coisas de serenata. “Se Adalberto inventar uma coisa dessas sei nem o que fazer”, disse Dalva. 
Nesse instante, Dalva é surpreendida por uns nipônicos vestidos de ninja e cantando “Eu amo você”, eternizada na voz de Tim Maia.

sábado, 2 de agosto de 2014

Devolva-me II



Passados todos esses dias em que não estamos mais juntos, é notório que tudo é sem volta e que é chegada a hora de seguir meu rumo. Convenhamos, cansei de toda essa dedicação sem reciprocidade. Faltam-me condições de nos salvar sozinho. 

Pois bem. Devolva-me “As cartas”, de Caio F. Abreu, devolva as cartas de baralho e rasgue as cartas que dei pra você. Quero de volta o que restou daquele whisky falso pra curar-me desse falso amor que você me deu. 

Por todas de uma vez, quero “Torquato Neto ou carne seca é servida”, do Kernard. Preciso ler pelas ruas e em voz alta o poema “Começar pelo recomeço”, que não lembro de cor. Precisarei do livro pra refrescar a memória. 

Invade-me a memória lembranças do dia em que lhe dei uma rosa, que você guardou entre páginas de sua agenda. Pois bem, devolva! Soube que por esses dias você cantarola “O travesseiro”, do Márcio Greyck, em conversas com as amigas. Conversas de que travesseiro “não abraça, não conversa, não responde, não substitui” e todo esse papo furado de quem – como bem diz o clichê – dá valor depois que perde. Enfim, se o travesseiro não lhe serve, fique sabendo que precisarei dele pra mim,  num torcicolo desgraçado. 

Se fosse possível, quereria de volta o tempo que perdi com você. Ah! Não tem aquelas estrelinhas vermelhas? Umas que são uns broches? Então, ganhei nas eleições de 2002, emprestei pra você e nunca devolveu. Pois eu quero, são itens de coleção, assim como aquele livro do José Serra “Reforma Política no Brasil”, de 1995, e como era a playboy da Regininha Poltergeist. Nunca te perdoei por você tê-la rasgado.

Pra não dizer que sou ruim, muquirana, deixo você ficar com “O universo em desencanto”, que você me tomou e nunca leu. Que você leia e atinja o bom senso.

De mais a mais, não quereria sair sem antes dizer que beberei muita cerveja, doses ordinárias desse whisky do carvalho e esquecerei depressa de você. Sim!

p.s.: Escrevo ao som de Luiz Melodia “começar pelo recomeço” (não vou lamentar, lamento muito, mas agora não dá, não me lembro mais do tal momento que você me deu).