segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Labirintos




Especular sobre a vida alheia causa a impressão de pequenez. E de chatice. Aliás, o cidadão mais chato da literatura é o narrador observador. Como ousa especular sobre a vida alheia? Como ousa invadir privacidades? No entanto, que seria da literatura sem o observador? O narrador observador é como o vizinho fuxiqueiro, é o tipo que dá conta da vida de todo mundo e conta tudo nos mínimos detalhes, floreando as histórias. Ou estórias. Eis aqui mais um desses casos. Confesso, hesitei escrever sobre, mas o desamor sempre chama a atenção. Os amores são diferentes, as paixões, as histórias de amor, mas a forma de lidar com o sofrer é quase sempre a mesma.

Alberto não teve, por assim dizer, uma atitude Nelson Rodriguiana, dessas de sentar no meio fio e chorar lágrimas de esguicho. Tampouco chorou lágrimas de pedra, nem andou por aí a se desgrenhar. Era grande o amor, maior ainda foi o sofrer, mas pensou por bem evitar vexames, embora um de seus amigos costumasse berrar “ame e dê vexame!”.

Mas, pensando bem, tal amigo falava sobre amar, não sobre sofrer. Beber os mares e cair em pranto sobre paralelepípedos estava fora de questão. Acabou o amor. Vida que segue.

Pensava meios de não se apegar ao sofrer. Escrever um livro, plantar uma árvore, viajar, caminhar sem destino. Qualquer coisa que lhe impedisse de ficar preso demais aos pensamentos de tristeza, porque isso majora os problemas, faz com que se tornem maiores do que realmente deveriam ser. Qualquer coisa que não envolvesse músicas do Marcelo Geneci. Convenhamos, desamor e Geneci não é uma boa combinação.

Soube de um amigo que saiu sem rumo e caminhou uns dez quilômetros com “Quarto de dormir” no fone de ouvido. Achou isso ápice do sofrer. A síntese do sofrer extremo. Não era dado a extremos. Na pior das hipóteses caminharia pela sala cantarolando “Habeas Corpus”, do Maurício Baia.

Without you – Badfinger – que toca na casa vizinha, invade o silêncio. Invadiu a sala. Em oposição, ligou o rádio e passou a ouvir – à toda altura – “Paciência”, versão Fábio Jr. É isso. A vida não para e o cidadão não pode se internar na solidão ou na angústia ou coisas que o valham. A vida traz as dores, mas não se furta à graça de trazer a cura, trazer novos amores.

Murmurou, baixinho, de si pra si que todo fim infeliz não deixa de ser um sinal de incompetência. A incompetência leva a infelicidades imensuráveis. O desmedido amor vira desmedido sofrer. A desmesura de paixão – salve Djavan! – vira desmesura de amargura.

Precisava pensar meios para não sofrer demais. Precisava evitar a fadiga. Precisava parar com as frases feitas. Precisava evitar o hábito da insônia, antes que virasse coisa natural.

Naquela baixura do campeonato, uma quase doce terça feira de manhã, o que lhe restava, por todas de uma vez, era citar Belchior e implorar: “Vida, pisa devagar. Meu coração – cuidado! – é frágil”.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Lux quae sera tamen






Café pra livrar-se do sono.
Fé pra livrar-se da dúvida.
Foco pra livrar-se da burrice.
Felicidade pra livrar-se das músicas de tristezas.
Conselhos pra livrar-se do que lhe aflige.
Oração pra livrar-se da angústia.
Amigos pra livrar-se da solidão.
Amor próprio pra livrar-se de sofrimentos futuros.
Livros pra livrar-se da falta de assunto.
Filmes pra livrar-se da falta de inspiração.
Músicas pra livrar-se da mente vazia.
Futebol pra livrar-se do tédio.
Let-s get It on – Marvin Gaye – pra livrar-se de 50 Receitas – Leoni.
Jacó pra livrar-se da desesperança.
Citação: “Os dias na esperança de um só dia”.
Simpatia pra livrar-se da timidez.
Rua pra livrar-se do silêncio.
Coragem pra livrar-se do Complexo de Girafales.
Luz pra livrar-se da escuridão.
Indiferença pra livrar-se dos chatos.
Novos sabores pra livrar-se do mais do mesmo.
(Tome nota: Pizza de chocolate).
Ternura pra livrar-se da amargura.
Desabafos pra livrar-se do sufoco.
Compreensão pra livrar-se de zangas.
Atenção pra livrar-se dos atrasos.
Abraços pra diminuir distâncias.
Reencontro pra amenizar a saudade.
Sorrisos pra afastar dissabores.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Na praça





Era apenas um rapaz em uma praça. Praça vazia. Era apenas um rapaz a esperar. Pernas inquietas, coração aos pulos. Tipo assim num baião. Talvez precisasse acalmar o coração.

Era apenas um rapaz em uma praça. E ele tinha mais de vinte mil perguntas. Por que tanta distância? Por que tantos dias? Por que quatros porquês? Por que o Dunga? Por que a distância? A história se repete por quê? Porque ele repete as histórias. As estórias.

Era apenas um rapaz em uma praça. Nas mãos um livro de Ricardo Kelmer. No fone de ouvido Emílio Santiago. Verdade Chinesa. Era apenas um rapaz em uma praça. Sentado. Acomodado. À vontade.

Era apenas um rapaz em uma praça pensando o que queria da vida. Um refrigerante pra suportar esse calor infernal enquanto ela não chega. Ônibus. Bicicletas. Pessoas com medo da rua. Da violência desenfreada. Espera. Começou fumaça. Tem sempre um aprendiz de Nero pondo fogo na cidade.

Era apenas um rapaz em uma praça. Com a intenção de um beijo doce na boca e ensaiando uma frase pra falar da saudade desmedida. Espera. Seu horário deveria ser mais cedo. Mulheres! Pensa que poderia fazer uma serenata. Os amigos ajudariam. Cantaria os olhinhos de noite serena.

Era apenas um rapaz em uma praça enquanto ela se aproximava vestindo um vestido florado. Óculos escuros. Ninguém mais bela. Era apenas um rapaz a esperar em uma tarde de outubro, sob um sol de rachar catedrais. Abana-se com o livro. Ela chegou.

- Quanto tempo!
- Pois é. Quanto tempo!


p.s.: “Ela vem e ninguém mais bela vem em minha direção” (Marisa Monte)

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

longe




para ler ao som de tem que acontecer. sergio sampaio.

edwar castelo branco no lugar do cérebro. em pensamentos repete baixinho para si mesmo trechos do professor. “rebobinei. rebobeei. voltei à primeira pessoa”. caetano no fone de ouvido. tudo parece tão distante. a multidão mais parece solidão coletiva. um estádio lotado parece solidão coletiva.

alheio a tudo que o cerca pensa na incompetência que leva aos finais infelizes. todo fim infeliz não deixa de ser um sinal de incompetência. repete outro trecho do professor. pensa nos erros e acertos. pesa. não foi nada ruim. erros e remorsos não apagam, não desmentem tudo o que houve de bom. muito bom.

quinze mil vozes lamentam um gol perdido. duas um amor. tudo parece solidão coletiva. quinze mil vozes citam trecho do professor. “sigo pensando nos liames que ligam o mim ao ti. a possibilidade ao acontecer”. gilberto gil no fone de ouvido.

rua cheia. solidão coletiva. alceu valença no fone de ouvido. pensa. então lembra e cita outro trecho de outro texto do mesmo professor. “sim, porque, por hoje, os quatro cantos me parecem vazios e silenciosos”.

nas calçadas de casas as pessoas conversam. solidão coletiva. e pensa em tudo o que poderiam ser. pesa. mais vale o que foram. o que não aconteceu não desmancha as alegrias, os passeios, as madrugadas em que a teve pelas mãos. ficará o que houve de bom. erros e remorsos não pautarão esses dias que se iniciam. promete não beber os mares. não quer ser outra vez resto de porre e ressacas infindáveis. prometeu. cumprirá. depressão nunca mais. george harisson no fone de ouvido. all thing must pass.

all thing must pass. all thing must pass. all thing must pass. all thing must pass.

o sorriso. as piadas. os livros na estante. a inteligência. a filosofia. pensa o quanto ela o fez crescer. não existe uma culpa específica. não faltou amor ou dedicação. talvez um jeito de colocar as coisas em prática. a dedicação talvez tenha sido errada. ele precisa de cuidados. ela também.
sergio sampaio no fone de ouvido. tem que acontecer.

p.s.: seja feliz, seja feliz.









sexta-feira, 15 de maio de 2015

Michel



Toca o telefone e ele se mantém inerte, sentado na cama com um bilhete e uma fotografia antiga nas mãos, enquanto pensa em tudo que poderiam ser. E pensa nos equívocos e na falta de expectativas que ambos criaram.
Repete para si mesmo que Sandra está em todos os lugares, em todas as coisas, nos livros da estante. Está naquele livro do José Serra em que ele critica a disparidade entre os programas eleitorais e alerta para o uso excessivo de personagens, efeitos e para a falta de propostas efetivas. Ela faz a mesma crítica.
O telefone toca novamente, outra vez não faz menção de atender e tenta identificar se a canção que toca naquele momento, em um rádio na sala, é mesmo Chico César. “onde estará o meu amor?”, cantarola, pergunta, mal sabe o que está fazendo.
Ela está em tudo. Naquele CD do Chico Buarque, mais precisamente na canção “Sem você II”. Sem você é o fim do show. Pensa, cantarola, declama, reclama. Está no jogo de futebol, no sofrimento da torcida do Fluminense e pergunta-se como é que ela tem se saído nesses dias de crise no Tricolor. Imagina que ela tem xingado e sofrido sem medidas, com medo de que finalmente paguem a série B.
Outra vez o telefone. A música que toca no rádio da sala lhe faz olhar a fotografia que tem nas mãos. “E o que vai ficar na fotografia são os laços invisíveis que havia”.
Há tempos abandonou algumas diversões e bebedeiras. Quase tudo tornou-se detestável. Afastou-se de algumas pessoas, dedica-se pouco ao trabalho, trancou-se em casa. Lê. Assiste. Ouve muita música e tenta entender por que abriu mão de seu ideal de independência, de evitar criar laços. Tudo seria mais fácil se mantivesse o ideal do desapego.
Outra vez o telefone. Não atende, nem mesmo quer ver quem liga. Pergunta-se por ela. No rádio, Chico Cesar ajuda com as perguntas. “Será que vela como eu? Será que chama como eu? Será que pergunta por mim? Onde estará o meu amor?”.
Ela está em tudo, em todos os lugares. Está em “Quase Poesia”, de Orlando Ribeiro Gonçalves, no poema “inimitável”. 'Já não suporto o tempo que nos separa/ Isto é, os dias em que não te vejo/ Ou melhor, os dias em que estou cego/ Para qualquer beleza que não seja a tua/'.
E outra vez o telefone tocou até que a chamada fosse perdida. E lembrou das noites, do tempo em que estiveram juntos, pensou na entrega desmedida e vazia de precauções. Pensa, lembra, lamenta, sofre etc, fez disso algo natural.
Outra vez toca o telefone. Não atende. Toca novamente, mas para poucos segundos depois. Bateria descarregou, preferiu nem mesmo saber quem ligava. Talvez algum amigo pra dizer que ele precisa ter mais cuidados consigo, ir pra rua, parar de ouvir tanta música triste e largar mão de crônicas tristes. Afinal, como diz a canção que tocava naquele instante, “o que vale é o sentimento e amor que a gente tem no coração”.
Madrugada. Sandra desistiu dos telefonemas. Michel dormiu segurando a foto dos dois e o bilhete com um trecho de “o mundo aos meus pés”, de Marcelo Camelo.
P.S.: “Ao sentar e olhar pro chão, Michel notou que a solidão lhe consumiu” (Parafusa).