quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Rosinha





Reginaldo vivia seus dias a espera de um só dia: o da volta de Rosinha, que foi embora e o deixou no abandono, sozinho, triste feito um corintiano depois de eliminação na Copa Libertadores. Sozinho, vivia pra morrer de saudade.
Reginaldo estava mal, “na bad” como disse Renato Paulo ao comentar sobre o amigo. “Nós precisamos ir a casa dele, caras. Ele tá na fossa, na bad”, dizia Renato. Ele estava preocupado e os amigos também.
Quando chegaram encontraram o pobre do Reginaldo bebendo um vinho, desses baratos, em um copo americano e ouvindo Raça Negra. Disse que estava entre Raça Negra e SPC há três dias e sem saber o que fazer pra ter Rosinha de volta.
- Caras, eu vacilei, fui burro, fui infantil demais. Disse pra ela que seria feliz sozinho, que precisava de um tempo só e ela fez foi me deixar. Disse que eu estava livre pra fazer o que eu quisesse, mas eu nem sei o que quero – dizia Reginaldo entre um gole de vinho e umas lágrimas – que é que eu vou fazer? – perguntava o inconsolável rapaz desamparado.
- “O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?” – cantava. – Eu tô na solidão, eu vivo pra morrer de saudade. Eu não quero esquecê-la, mas se algum dia eu quiser, como é que eu faço? – insistia em perguntas. – Pra ser sincero eu quero mesmo é ela de volta. Algum de vocês, por favor, diz pra ela que eu a amo e só vou deixar de amá-la quando o Sergio Cabral deixar de dissimular. O que eu faço pra ela voltar?
- Rapaz, eu acho que o Jurandir pode te ajudar. Ele é que entende dessas coisas, ele estava do mesmo jeito com a Francisca Helena e eles voltaram – disse Oduvalzinho, o mais novo da turma.
- Diz aí Jurandir o que eu vou fazer –, implorou Reginaldo.
- Rapaz, o que ele fez foi meio sem graça, ele chamou uns anões pra fazerem serenata e depois chamou uns Mariachis. Nem Mexicanos eles eram. Vai na onda do Jurandir não que as ideias dele parecem coisa de doido – alertou Lindomar.
- Verdade, se seguir as ideias dele aqui é capaz da Rosinha não querer nem te ver mais. Eu digo isso porque minha namorada, a Rosali, disse que se fosse com ela, ela ia era correr até o Qatar pra não passar por uma coisa dessa. – Alertou Adolfo.
- Pela Rosinha eu faço tudo, até as coisas mais bregas, qualquer coisa que faça ela me querer de volta. Pelo amor de Deus, Jurandir, tu que entende dessas coisas de segunda chance pela milésima vez, diz aí: o que eu vou fazer? Diga, homem – suplicava Reginaldo.
Jurandir explicou o que fez, falou em serenatas, mariachis cantando 'besame mucho', flores e travessuras. Reginaldo entendeu o recado e no dia seguinte faria o mesmo, precisava tentar, era a última chance.
O que Reginaldo não sabia é que Rosinha quase morreu de rir quando soube que Jurandir fez serenata com uns anões vestidos de anjo e cantando “please forgive me”. Rosinha disse para as amigas que se algum dia alguém fizesse isso pra ela era fim de romance por justa causa. Reginaldo não sabia, mas sua última tentativa poderia ser a última chance.

domingo, 28 de outubro de 2012

Ensaio sobre um melancólico





Existe uma infinidade de coisas presas na garganta, um sem-número de perdões esboçados e palavras jamais ditas. Existe uma vida de amores sabotados, esquecidos e tristonhos. Melancolia quase sem fim a tomar conta. Existe um enorme desejo de mudança, tudo muito urgente.
Existe o hábito de pegar o bonde andando, de fazer o amor perder a condução e as condições. O triste hábito de carregar o mundo nas costas virou coisa natural, daí vem o apego aos problemas allheios e o esquecimento de suas soluções.
Existe sempre o medo de um envolvimento. De não em não o amor enche o saco. De perdão em perdão alguém tem que pagar o pato. O medo de se entregar sempre aparece quando se apega à mania de olhar pra trás, mania de viver de passado. Um passado triste e uma abominável melancolia. Sua vida parece uma ambientação de Noites Brancas.
O relógio marca três da madrugada, os amantes estão cansados e a insônia o domina. As olheiras são marcas das madrugadas, das noites inteiras passadas em claro e dos fins de semana passados em casa.
Traz consigo algumas interrogações e poucas respostas. Por que tanta preocupação se é tão grande a sua juventude, afinal é uma pessoa que começa a viver? Quase não se interessa em buscar as respostas para tantas perguntas. Fala-se em quase pra não pra não parecer radical demais.
Cita Belchior quando não sabe o que dizer, acredita que seu coração é fraco, mas custa acreditar que não é tão bom carregar o fardo de ser apegado demais aos problemas alheios. Se ressente de não ser um egoísta.
Citação: “Vida, pisa devagar. Meu coração, cuidado!, é frágil – Belchior.
Sua fé – que outrora era extremamente funcional e importante – tornou-se decorativa apenas. Sente medos. Aliás, parece ter criado uma afeição ao medo e passou a tratá-lo como um grande amigo. Talvez o único grande amigo.
Sonha um dia aprender como se diz eu te amo e se autodeclara um romântico teórico. Ama a saudade, mas não sabe degustá-la, não sabe tirar algum proveito dela e se perde em lembranças tristes.
Apesar dos pesares, em raros momentos de esperança, tem sonhos e pretensões de realizá-los e talvez algum dia se mostre corajoso a ponto de buscar o que quer. Talvez algum dia beba os mares, aprenda a dizer te amo e procure alguém pra lhe fazer bem por tempo indeterminado.
Espera que não desista ainda jovem do amor e que não pegue mais o bonde andando, mas enquanto esse dia não chega, vai ensaiando um sorriso pra menina que ele viu passar na esquina e que tem pernas bonitas. Algum dia – torcem os amigos e até os inimigos – deixará de ser um tanto malcuidado.
Mas ao passo que espera tudo isso de si, lembra que a fé não é mais sua mais forte companheira. E lembra-se que antes, quando estava em desespero, cantava alto em inglẽs, diferente do Belchior, que desesperadamente grita em português. Hoje nem cantarola e nem lembra mais da canção de George Harrison.
Citação: “Seems my love is up!”- George Harrison.
Enfim, um dia a nuvem cinza passará.
P.S.: “All thing must pass. All thing must pass away.” (George Harrison).
P.S.2: Os três primeiros parágrafos foram escritos enquanto assistia “Heleno”, um ótimo filme.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Corina





Vivi hoje uma dessas noites em que não se consegue dormir. De quando em vez o pensamento de que a morte é uma merda, conforme li alguém dizer uma vez. Ao passo que penso assim, tento entender com que direito reclamamos da morte. O poeta Ramsés Ramos questionava o que diria de nós a vida após termos aproveitado todas as suas festas e banquetes. Enfim, não sei o que dizer sobre a morte, nada além de que é a ordem natural das coisas. Faz parte. Faz parte. Tudo o que é vivo morre, sentenciou Ariano Suassuna.
Mais do que a morte, nos impressiona o morrer.
Corina era minha tia e tinha 70 anos. Viveu uma vida digna e era honrada e brava como seus pais. Corina foi mais uma das vitimas da diabetes, mas jamais se entregou. Quando a visitava era sempre recebido com sorrisos no rosto. Corina também era mais uma das vítimas do AVC, um dos males do século.
Como se fosse guiada pelo vento, a má notícia de seu falecimento chegou rápido, ontem à noite. Confesso, ainda não sei se a ficha caiu. Ainda não sei se é por isso que contenho o choro ou se é por medo demais uma seqüência de falta de ar que costuma vir com as lágrimas, como foi noite passada.
Mesmo muito doente, Corina jamais se entregou, como fazem os covardes. Evitava emoções fortes, precaução tem que ser assim. Jamais esmoreceu, como se não quisesse repassar para os filhos qualquer aflição que lhe aparecesse.
Os filhos de Corina são gratos a ela por tudo o que fez pela família. São gratos por terem sido todos criados pra serem pessoas de bem. Os filhos. Os filhos e os netos, eis os maiores legados de Corina.
Meus irmãos e eu e muitos dos meus primos chamávamos Corina de “Mãe Corina”, em vez de tia, tamanho o envolvimento que ela mantinha com todos da família. Corina era aposentada – merecida aposentadoria após tantos anos dedicados ao serviço público. Era uma mulher alegre, doce e não media esforços para defender os filhos. Como uma boa nordestina, virava uma leoa na hora de defender os seus, porém sem perder a ternura.
Eu levaria dias inteiros enaltecendo qualidades dela, mas, por hora, o que quero dizer é que ela deixa pra sempre uma imperecível e imorredora saudade. Nesses dias cruéis, tentarei distrair meu coração das dores que a vida nos dar.
Corina nos deixou nessa noite do dia 26 de setembro.
P.s.: “Agora uma nova estrela brilha no céu iluminando essa escuridão. Em sonhos sei que posso te imaginar. Eu só quero lembrar que você sempre vai existir aqui.” (Casaca)

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Saudosismo



Acordei com caetano veloso na cabeça. Sim, voltei a ouvir o 'prenda minha', melhor álbum do caetano e tenho ouvido muito 'saudosismo' e é impressionante como essa música lembra você. Às vezes penso que ouço saudosismo à exaustão como se precisasse de um aviso repetitivo me dizendo “chega de saudade! Chega de saudade! Chega de saudade!”, talvez um jeito pra eu lembrar de te esquecer
Mas como esquecer se temos um passado tão bom? Não sei explicar bem o que acontece. Quando eu disse que ia deixar de amar, eu realmente me esforcei pra isso e consegui. A saudade que sinto não é daquelas saudades de quem quer o tempo de volta, é que ultimamente tenho andado com a cabeça pelas tabelas, um tanto aflito e vivi bons dias contigo, então lembro e lembro, isso me deixa melhor.
Ainda sobre 'prenda minha', dá uma aflição ouvir 'drão'. Lembro de mim dizendo, implorando, sei lá, pra você pensar melhor, “não despedace um coração”. E, eu cheio dos pecados e chegadas fora de hora, não merecia, mesmo, uma segunda chance pela milésima vez. E eu, cheio dos pecados e das culpas, fui praticando auto-sabotagem até fazer nosso amor começar a morrer.
Sem correr, bem devagar, saí da tua casa jurando pra mim mesmo que iria te esquecer e que um dia deixaria de te amar. Seria dura e escura a caminhada rumo aos novos mundos pra onde levaria minha vida e eu morria de medo de tudo. Sabe, deixar de amar, por incrível que pareça – e você vai me perdoar – foi até fácil, esquecer não. Esquecer é difícil, porque nós construímos uma amizade e quando acaba o amor de namoro, resta o de amizade. Por que por mais que fosse cheio de pecados e fugas, você sempre estava apta a mostar um caminho bom e ameno pra mim. Às vezes, era como se você fosse o meu próprio caminho.
E isso de você parecer ser o meu caminho é que o me faz escrever mais uma vez pra você e talvez nem mande isso assim como todas as cartas que escrevi e não mandei. Você me ensinou a mania de escrever cartas, mas devia ter ensinado a mania de enviar também.
Ah! Você ainda faz coisas estúpidas como dizer pra todos que meu apelido é 'marley e eu' porque eu fazia as crianças da sua casa chorarem? Eu era mais estúpido ainda imitando vampiros e zumbis.
Enfim, é isso. Ou mais do que isso, seja lá o que isso for. Saudade, um querer bem. Talvez precisássemos nos ver mais, antes que as novidades fiquem velhas. Comprei o álbum 'circuladô', do Caetano Veloso, posso emprestar. E sobre aquela coisa de amor de amizade, preciso de umas broncas também. Um caminho novo pra sair dessa estrada, onde ando solitário e frio.
Sabe, por mais que o Caetano insista nessa coisa de 'chega de saudade!', não dá pra não sentir saudades de você.
Leia ao som de 'saudosismo' e bebendo um bom vinho. Ou um vinho barato, desde que seja em uma das taças de cristais que a tua vó te deu.


sexta-feira, 7 de setembro de 2012





 Cê tem razão quando fala que exagerei no scotch aquele dia, mas não pense que foi por causa disso que eu te falei aquelas coisas todas, cê precisa acreditar em mim. Eu gosto mesmo de você. E não pense que é um gostar desses que só aparecem com embriaguez. Cê tem que acreditar em mim. Cê deve saber que sempre gostei de você. E cê também gosta de mim.
Lembra quando tentamos uma vez e não deu certo? A princípio fiquei frustrado, mas logo percebi que foi até bom. Éramos imaturos e com tanta gente na nossa história – amores antigos, amigos maldosos e até inimigos – não passaríamos duas semanas juntos, seria precitado se tivéssemos tentado. Àquele tempo o desgaste chegaria rápido.
Naquele tempo estávamos cansados de tentativas frustradas, de nos perdemos sempre que encontrávamos alguém em quem apostar. Éramos – como você disse ontem – dois imaturos achando que mudaríamos nossas vidas consolando um ao outro fazendo travessuras e tentando algo mais, mas ainda bem que percebemos o engano a tempo. Você percebeu, aliás, eu ainda apostava alto.
Olha, eu sei que você tem alguns medos, que já sofremos muito, que já colocamos nossos corações em muitos apuros, mas acho que você precisa ficar menos preocupada com essas coisas. Vamos aproveitar o hoje e esquecer as mãos que seguramos e que depois nos deram adeus, as faces que beijamos e que um dia se viraram pra gente, os choros com as despedidas e cada adeus.
Pouco importa o que será o amanhã, o depois ou o que virá para o resto da vida, pelo menos por enquanto devemos aproveitar o hoje. Coloca outra cerveja no teu copo, essa tá quente.
Teu corpo tá quente, o que está acontecendo?
Veja os casais das mesas ao lado, eles parecem felizes e despreocupados com o amanhã e com o que as pessoas poderão dizer. Acredito que amar é isso. Um pouco isso. Ou um muito, não sei bem, já te disse que sou um romancista teórico, um pobre amador em relação a essas coisas de amor.
Você fala em receios por tudo o que já passamos, por todas as coisas que confidenciávamos quando nos encontrávamos pra falar de amores que davam em nada e decepções e mais desilusões, mas cê precisa entender que pode ser certo essa coisa de que os erros nos ensinam, talvez tantas coisas erradas fossem um modo de nos preparar para hoje. O fato de todos os amores que vivemos não terem sido suficiente não pode ser condição necessária para tanto medo.
Ainda que não tivesse exagerado no Scotch eu teria dito todas aquelas coisas como te digo hoje. Olha, precisamos entender que estamos prestes a perder uma grande oportunidade de darmos um passo importante para nossas vidas. Penso que é chegada a hora de apostarmos em um sonho lindo, mas como já disse, sem precipitação, um dia de cada vez até que esse dia de cada vez seja uma dessas coisas que chamam de pra sempre, mas não um pra sempre qualquer como esses que estão sempre por um triz ou um desses que sempre acabam. Ou um desses que não é todo dia. Falo de um pra sempre de verdade.
Vem! Confia em mim, em nós e no amor.
P.S.: “Quanto aconteceu, agora deixa pra depois, parece cena de novela de colorida por nós dois.” (Volver)

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Um dia de domingo




Mais dia menos noite isso iria acontecer. Mais dia menos noite nos encontraríamos e perguntaria o porquê de você terminar assim, de repente. Você sabe tão bem quanto eu da minha mania de achar que a minha vida é uma sucessão de acasos felizes. Nos encontramos hoje por acaso, mas confesso, não sei se esse é um acaso feliz. Minha vida tem sido de melancolia e essa conversa pode ir para o mesmo caminho.
Não sei até que ponto esse reencontro e essa conversa podem ficar melancólicos. Discutir uma relação que já não existe mais parece coisa de louco pra quem tem juízo. Esqueci de perguntar como vai você. Mas nem precisa responder, aparentemente está bem e vai dizer que está, mas eu sei que não. As aparências enganam.
Mas sei que você não andou por aí a se desgrenhar e chorar lágrimas de pedra. Também não fiz muito esforço pra transformar meu bairro em um lugar submerso por minhas lágrimas. Conto nos dedos as vezes em que chorei. Eu não tinha muito porque chorar, eu queria mesmo era entender o porquê de tudo terminar tão de repente. A princípio a sensação era a de que meu coração ficou parado naquela praça onde terminamos tudo. Ou quase tudo.
Por uns dias acordei depois do meio dia com terríveis ressacas. No espelho, um rosto mais velho. Uns dez anos ou mais como canta não lembro quem. Quando cê me deixou assim, de repente, fiquei em frangalhos, as esperanças estavam dilaceradas. Tem uma metáfora bacana pra isso, é “a esperança era um sorvete em pleno sol”. Tava mais ou menos assim. Hoje mellhorei.
Aquele adeus não valeu, foi sem explicação convincente. Não se desama de um dia pro outro. Poderia perguntar se estava a mentir o tempo todo sobre amar, mas não farei isso. Não seria covarde a ponto de duvidar do teu amor por mim. Doeu que tenhamos saído assim sem nem mesmo nos despedir. Nenhum último beijo. Depois de tantas felicidades, travessuras, tantas juras, saíamos sem um até breve. Apenas um “te cuida!”.
Depois de uns porres eu me cuidei. Eu ficava um porre e começava a reclamar de tudo. Reclamava da vida, da cerveja, da relatividade, do CD do Chico Buarque, da carta aberta da Dilma criticando FHC, da impossibilidade de voltarmos à monarquia pelo simples fato de Luiz Inacio estar com o rei na bariga. Eu queria voltar no tempo e tentar ser feliz, mas depois eu me cuidei. Ainda rola uma melancolia, alguma saudade, mas são coisas que um dia acabarão.
Dia desses disseram que parecíamos um desses casais de música do Chico Buarque, mas acho que não. Estamos mais pra personagem de Woody Allen, naquele filme que cê gosta. Anne Hall, né?
Acho que tenho conversado muito pra um encontro casual. É chegada a hora de ir embora e nem perguntei o porquê de tudo ou quase tudo ter terminado.
Enfim, o importante é saber que você está bem. Pelo menos aparenta estar bem. E quanto a mim, preciso ir embora, boa sorte, até outro dia.
P.S.: “Andando pela calçada torta, a luz do sol é o que me conforta, mas sigo sozinho se tem que ser assim.” (O Quarto Azul)


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Nostalgia




Seguia pelas ruas do bairro cantarolando um rock desses bem românticos. As coisas pareciam fora de lugar e ele não tinha a menor pretensão de ver as bobagens da TV. Talvez um bar, onde pudesse beber os mares.
Por alguns instantes lamentava por se encontrar em tal situação. Alegava estar quieto, calmo em seu lugar, sem pretensões de se apaixonar, até que ela apareceu em sua vida. Em pouco tempo ela se tornou, segundo ele, a coisa mais importante que lhe aconteceu nos útimos meses. Lamentava por não ter consigo aquela que era sua amada.
Dizia estar sem rumo e sem saber como pôr ordem em sua vida. Recorrer aos amigos era uma boa ideia, mas ele conseguiu a façanha de se afastar dos melhores amigos. Até dos piores ele estava distante. Precisava de alguém com quem pudesse reclamar da vida, da cerveja, da gravidade, do mais novo CD do Marcelo Camelo, dos juros, da economia, do PIB da Dilma. Sobre qualquer coisa. Do seu sonho de ir pro Recife, onde pretendia ganhar a vida e ser feliz. Era um cara cheio de pretensões.
Trazia consigo uma certa mágoa por não ter lutado mais. Poderia, acredita, pedir que ela ficasse. Poderia pedir, implorar, berrar, gritar, ajoelhar, qualquer coisa, menos desistir tão fácil. Não se conformava por tê-la deixado ir embora. Ela foi sorrindo, sem abraços, sem beijos de despedidas e sem lamentar. Mas, segundo ele, era um sorriso de quem pedia pra voltar, de quem pedia pra ele não deixá-la ir. Como deixar que um grande amor fosse embora? Como deixá-la ir se a amava? Como sofria seu coração.
Não sabia o que fazer pra esquecê-la, tinha sempre alguém pra falar dela, tinha sempre alguém com alguma característica que lembrava ela. Esquecê-la estava fora de questão. A saudade sempre vem na calada da noite, principalmente em uma caminhada sozinho e sem rumo.
Ele costumava dizer que ela parecia as personagens de um de seus escritores favoritos. Uma dessas garotas PhD em desilusão de entusiasmo e que é cheia de medo de sofrer. Ele deveria prever que mais dia menos noite ela poderia deixá-lo, assim, sem muita explicação, sem oportunidades para segundas chances pelas milésima vez, pois era assim que essas personagens se comportavam. A verdade é que nunca se deu muito bem com essas coisas de amor, entendia pouco e era ausente, embora se julgasse especialista em romantismo teórico. De que vale saber e não colocar em prática?
De passo em passo, chegou em um barzinho. Pediu pro carinha da música ao vivo cantar “Todo o sentimento”, do Chico Buarque, e pôs-se a segurar o choro no instante em que ele cantou. O mundo seria melhor se houvesse um jeito de refazer o tempo e fazer renascer o um sentimento que se desfez.
P.S.: “Os dias lembram alguém que nunca sai da mente.” (Jay Vaquer).

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Futuros Amantes IV





Patrícia era gentil, doce e colorida e Pedro costumava dizer que ela parecia uma princesa de trovadores. Luana era diferente. Tinha certa tensão, vivacidade e era decotada. Parecia uma marquesa do século XVIII.
Luana quis saber quem era a moça com quem Pedro estava conversando. “Não é ciúme, é apenas curiosidade. Não tenho motivos pra ter ciúme, mas posso ser curiosa, não é?” Disse com um sorriso entre dentes.
- Sim, pode! – respondeu Pedro. – É a minha ex-namorada, mas eu não quero falar sobre ela. Não hoje. Veja só, eles estão cantando Jorge Maravilha e, segundo Chico Buarque – Pedro começou a cantarolar – “não vale a pena ficar, apenas ficar chorando, resmungando: ‘até quando? ’ Não! Não!” – Disse sorrindo.
“Vem, me dê a mão, a gente agora já não tinha medo. No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido.” Cantarolava Luana.
E saíram os dois. De mãos dadas, em busca de um táxi, com destino à felicidade, que pra eles seria a casa de Luana. Lá eles teriam vinho, conversas e travessuras. E não falariam em solidão, nem em tristezas abissais.
Depois das travessuras, Luana queria um colo e cafuné até dormir. Por fora disfarçava sua aflição, mas o que a levou ao bar foi o mesmo motivo que fez Pedro ir até lá. Luana tinha terminado o seu namoro naquele dia. E quando saia da Praça Pedro II pra ir para o bar na Avenida Frei Serafim, viu Pedro em um banquinho chorando. Assim que ele chegou ao bar, ela o reconheceu. Quando falou que todo fim infeliz não deixa de ser um sinal de incompetência, ela falava de si mesma e do fim do seu namoro.
Luana, que acreditava em ironias do destino, pensou que aquela fosse uma dessas ironias. Por isso chamou Pedro pra sentar com ela. Dois corações feridos se entenderiam. Ambos queriam saber por que um casal acaba. Talvez aquele fosse o momento em que um casal começa.
Ela estava afim de um romance assim, tipo, pra vida inteira. Talvez fosse Pedro o cara certo. A princípio, não pensou tanto nessa possibilidade, era mais importante que pelo menos por uma noite poderia ser feliz, poderia fazer festa, fazer as folias que não fazia por causa dos ciúmes e insegurança do ex-namorado. Uma festa, um samba, umas cervejas e talvez algum amor ou alguém pra travessuras, cafunés e amor até mais tarde, sem se importar se teria muito sono de manhã.
Luana não sabia se aquele era o momento certo pra outra história de amor. Ela percebeu pelo olhar de Pedro que ele queria algo além de uma noite. E tantas coincidências, tantos gostos parecidos poderiam levá-los a algo mais. Ela, tão sentimental quanto ele, estava sempre à espera de algo mais.
Pedro se esqueceu de tentar entender por que um casal acaba. Pela lei de Luana, eles eram obrigados a ser felizes. Não acreditava nessa coisa de amor à primeira vista, mas acreditava estar diante do que poderia ser um desses casos de entusiasmo à primeira vista. Talvez algum dia isso seria algo mais.
As mágoas de março foram esquecidas no show do evento “Artes de Março”. Quando saíram do táxi, na casa de Luana, começou a chover. Eram “as águas de março fechando o verão”. Eram “promessas de vidas em seus corações”, como diz a música. Tinham a sensação de que naquele momento eles viviam uma ambientação de música do Tom Jobim. Era o começo de um caminho. E que não aparecessem pedras nesse caminho. Dessa vez tentariam algo bem melhor. Por hora, seria inútil dar nomes às emoções e sentimentos. Sequer sabiam se era algo especial ou diferente ou um passatempo desses que aparecem com os sacarmos do acaso. Ou ironias do destino.
Luana beijou Pedro com urgência e aflição.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Futuros Amantes III







Depois de algum tempo ele quis saber por que ela deu trela pra ele, por que o chamou praquele show, vários porquês, antes de lembrar que eles nem se conheciam.
- Mas eu sei teu nome e você sabe o meu. Também sei as razões que fizeram você ir aquele bar. Por enquanto é o que importa. Depois nos conheceremos melhor, saberemos além dos nossos nomes e gostos musicais. – dizia Luana. – Agora deixe de coisa, vamos curtir a festa.
- Tudo bem! Você tem razão. – Consentiu Pedro. – Aquele cara manda muito bem no piano. É um desses prodígios, gênio mesmo. – Mudou de assunto. Naquele instante, Victor Araújo, o pianista, começava a introdução de “João e Maria” com a valsa de Amelie Poulain.
Com a valsa, uma troca de olhares, de sorrisos, um passar de mão nos cabelos de Luana, um encantamento mútuo, brilhos nos olhares e um beijo aconteceu.
Não foi por uma carência ou coisa parecida que Pedro beijou Luana, foi por um encantamento diante de tanta beleza e generosidade e carinho. Luana era muito gentil e carinhosa e ele nem sabia se merecia tanto.
Perderam a noção da hora. De repente, bateu vontade de ir pra outro lugar. Pedro disse que o mundo seria melhor se Luana o convidasse pra ir pra casa dela. Ela morava com uma amiga. Ela aceitou. Poderiam conversar mais, saber mais um do outro e, quem sabe, fazer algumas travessuras até confundirem as pernas. Os corações só não podiam se perder.
Antes de irem embora, Luana disse estar com sede e Pedro saiu pra comprar água. Quando caminhava em direção à praça de alimentação ouviu alguém lhe dizer “Mas já? Tão rápido assim?”. Era Patrícia, sua ex-namorada. Ele se deu conta de como é desconcertante rever um grande amor.
- Oi! – disse ele com uma voz que quase não saía.
- Com você a fila anda rápido, não é? Ou já havia andado antes mesmo de terminarmos? Talvez não estivesse tão errada quando disse que você só pensa em você. – disse Patrícia aparentando certa chateação.
O olhar de Patrícia foi como uma pedrada, ríspido e seco. Pra ela, era visível que o que havia entre eles ruiu. O amor que eles se deram era muito, mas acabou. Era o que parecia. Antes de encontrar Pedro naquela festa, Patrícia já pensava isso, mas trazia consigo a idéia de que as aparências enganam.
Pedro, constrangido, não sabia o que dizer.
- Mas fica tranquilo. – falou Patrícia. – Já não existe esperança de tudo se ajeitar e você já não me deve mais explicações. Até fico feliz que você esteja bem. Saiba, não estou mentindo. Fico feliz mesmo. Você é sempre tão sentimental, cheguei a pensar que você enfrentaria tristezas abissais. Que bom que já está bem - Disse Patrícia.
Pedro tentava esconder a aflição. A princípio ele achou mesmo que choraria até desidratar. Até ficar submerso. Pensou que faria um mar de lágrimas. Mas Luana, uma desconhecida e atenciosa, o livrou dessas tristezas abissais. Pedro tinha Luana pra lhe abraçar e lhe entender. Ela o fez perceber que tristeza é de doer. Ele tinha a obrigação de ser feliz.
“Como é desconcertante rever um grande amor”, pensava Pedro.
Pedro não acreditava em destino, muito menos que poderia ter ironias. Ele costumava falar em sarcasmos do acaso. Pois bem, enquanto ficava calado, tentando encontrar palavras, alguém pedia pra banda cantar alguma música da Mula Manca, antiga banda de alguns integrantes de Seu Chico.
- Você tem razão – começou Pedro – não te devo mais explicações e de nada adiantaria tentar explicar qualquer coisa agora. E, por favor, não comece com essa história de que eu só penso em mim. Você disse pra eu ser feliz e passar bem e é o que estou fazendo. Quero que você também seja feliz. Quero que saiba que nunca te traí. Sobre essa coisa de fila, esquece. Aconteceu. Ela é só uma amiga, nos conhecemos hoje. Mas deixa pra lá, não preciso explicar nada.
Naquele mesmo instante, a banda tocava uma canção da Mula Manca em que Tibério mandava um “hoje eu vou dançar com a primeira que me cativar. Não vou me envolver, só vou me animar. Se, por ventura, me vir não me venha desconsiderar. Por anos confessamos os nossos pecados, planejamos corrigi-los, mas nunca fizemos”.
Não corrigiram mesmo. Patrícia parecia desconcertada. Pedro falou que o show estava acabando, que Luana esperava e que precisava ir embora.
- Te cuida! – falou Pedro.
... Continua! (Parte IParte II)


terça-feira, 21 de agosto de 2012

Futuros amantes II





Luana – era esse o nome da garota – quis saber se ele estava a fim de ir pra outro lugar. Artes de Março, talvez. Era dia de uma banda de Pernambuco.
- Banda Seu Chico, de Pernambuco, eles são bons. Cê conhece? Vamos? – disse Luana.
- Sim, conheço! Aliás, alguns dos caras eram da banda Mula Manca. Muito boa também. Eles são bons mesmo. – disse Pedro Lucas, um tanto empolgado por estar com alguém que conhece e gosta de Seu Chico. Feliz coincidência.
- Pois vamos! Festa é o que nos resta! – disse Luana.
Pedro Lucas lembrou-se de já ter ouvido ou lido essa frase sobre festa em algum lugar, não sabia de onde.
- Isso que cê falou agora, “festa é o que nos resta!”, eu já ouvi em algum lugar. Talvez tenha lido. É uma frase banal, mas pra mim ela parece ter algo especial. Não sei onde li. Ouvi, sei lá. – Disse Pedro.
- Eu li em um livro do Ricardo Kelmer. – disse Luana
- Verdade! Também li. Muito bom o livro.
Pagaram a conta e foram para o shopping, onde assistiriam ao show da banda Seu Chico. Pedro sugeriu um taxi. Ou ônibus. Ela preferiu ir a pé. E sua idéia pareceu melhor, caminhariam e teriam mais tempo pra conversarem e descobrirem mais coincidências entre eles.
Luana vestia um longo vestido florado, tinha sorriso largo, sorriso de porta-bandeira. Dava pra fazer um hino com o som de sua risada. Ele era um cara de conversa agradável, universitário e gostava de músicas e escrever. Adepto do romantismo teórico.
Conversaram bastante até o shopping. Riram muito quando chegaram à ponte e Pedro, do alto de seu medo de altura, resolveu chamar um táxi para que pudessem atravessar a ponte. Ele parecia estar encantado com a beleza e generosidade dela. Por alguns instantes nem lembrava mais do fim de seu namoro. Melhor nem lembrar mesmo e nem comentar nada sobre isso.
- Será possível sair de uma sofrência em menos de uma hora? – pensava Pedro. Ele estava com um olhar perdido, olhando sem olhar, longe de tudo, até mesmo de Luana, que começou a cantarolar Chico Buarque: “- Viva a folia, a dor não presta, felicidade sim!”. E ele pôs-se a sorrir no instante em que ela cantou.
Finalmente chegaram ao show. Quando chegaram, a banda já estava na segunda música. Pedro foi buscar cervejas para os dois e ao voltar encontrou Luana dançando. O vestido florado a deixava ainda mais bonita. Ela sorria sem parar.
Luana parecia contagiada pela alegria da banda, pela empolgação de Tibério, o vocalista. Tinha mais samba em Luana do que em todo o Rio de Janeiro em dias de carnaval. E ela tentou convencer Pedro a dançar. Ele ficou desconcertado, disse que não sabia dançar, falou em joelho machucado, argumentou de todas as maneiras, mas foi inútil.
- Você chegou naquele bar com olhar de quem chorou, estava triste, e apesar de tudo o que aconteceu com você, eu fiz você sorrir, o que parecia difícil. Depois de te fazer sorrir, te fazer dançar vai ser mais fácil. Vamos, cai no samba que pela minha lei você é obrigado a ser feliz. – disse Luana empolgadíssima. Impossível dizer não.
Pedro fazia movimentos estranhos, o que não parecia muito com um samba, mas pouco importava. Por alguns instantes esqueceu-se de suas sofrências. Estava feliz. Luana tinha uma responsabilidade muito grande nisso e Chico Buarque estava certo quando cantou que se todo mundo sambasse seria mais fácil viver.


...
Continua! (Parte I)

domingo, 19 de agosto de 2012

Futuros Amantes I




Com o olhar de quem chorou, sentou e pediu uma cerveja. Por que um casal acaba? Pensava.
As mãos estavam trêmulas, as pernas pareciam estar sambando. Movimentos involuntários. Nunca antes em sua história de vinte e poucos anos havia terminado namoro igual aquele em que depois de três meses já faziam planos pra vida toda.
Teve ímpeto de tomar um porre, mas logo ponderou. É arriscado demais tomar um porre depois do fim de um namoro. Pensou na possibilidade da embriaguez fazê-lo cair em prantos, ali mesmo no bar. Seria um vexame.
Pensativo, tentava entender porque um casal acaba. Pensou alto demais e uma moça, sentada sozinha na mesa ao lado, disse que em alguns casos, todo fim infeliz não deixa de ser um sinal de incompetência.
Ora, ele não falou em final infeliz. Ficou constrangido com a intromissão da menina da mesa ao lado. “Como se intrometer em meus pensamentos”, pensava. Dessa vez pensou baixo, bom pra evitar mais constrangimentos. Ela perguntou o que aconteceu e se ele queria conversar e sentar com ela. Ele poderia ficar à vontade pra beber a cerveja dele. Ela bebia Campari.
Ele aceitou, não parecia uma boa idéia ficar sozinho naquele bar, embora tenha ido pra lá com o intuito de ficar só e pensar em sua vida. Seu namoro tinha acabado de maneira infeliz e por incompetência. Ele e a namorada ainda se gostavam, talvez ainda se amassem, e apostavam muito nesse namoro, mas acabou. Acabou! Um final infeliz. A incompetência ficou por conta das ausências, da falta de tempo, falta de tanta coisa.
E tudo foi acabando aos poucos, e, de súbito, um foi saindo da vida do outro e o que acreditavam ser para sempre, durou alguns meses. Foram felizes, claro. Muito! Mas nas últimas semanas tudo foi se desgastando.
Com a voz um pouco trêmula, perguntou o nome da garota da mesa ao lado, agora, companheira de mesa. Começaram a conversar, ele explicou o que aconteceu, falou da ex-namorada e da inexperiência em fins de namoros. Nunca havia terminado um namoro daquela forma.
- Das outras vezes dizia um “te cuida”, como ensina Martha Medeiros, e saia em busca de viver minha vida, mas dessa vez não consegui ser assim. Faltou frieza, sobrava amor, talvez. – dizia Pedro aos prantos, por dentro. – Eu estava morrendo de pena de nós dois. Terminamos sem um beijo de despedida, sem um até mais. Por dentro, eu estava em prantos, aflito, mas tive que segurar. – disse Pedro com a voz embargada.
Pedro deixou pra chorar em um banquinho da Avenida Frei Serafim, onde Patrícia e ele ficaram pela primeira vez. Foi depois de uma festa no Clube dos Diários. Uma quarta feira de futebol.
Não era de falar de sua vida, principalmente para pessoas que não conhecia, mas naquele instante precisava conversar com alguém, falar do que lhe aconteceu, talvez ouvir algum conselho interessante ou um convite pra algum lugar, fazer qualquer coisa.
Luana – era esse o nome da garota – quis saber se ele estava a fim de ir pra outro lugar. Artes de Março, talvez. Era dia de uma banda de Pernambuco.
... 
p.s.: Continua.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Noites sem fim






Eu hoje fiz um texto meio assim sei lá com pitadas de romantismos e achismos cheios de convicções.

E eu acho que estamos fazendo tudo errado e que você gosta muito de mim. E acho que também gosto muito de você, por isso vivemos por aí, por ali e por acolá nos perdendo quando encontramos alguém pras nossas vidas.

Nessa avenida estamos sambando errado. Nessa multidão estamos caminhando errado e pegando o bonde andando. Eu acho que já estamos pra lá da fase do entusiasmo, mas ainda não aproveitamos as chances e não nos demos conta de que mais tarde pode ser tarde.

Isso de achar que estamos perdendo chances me deixa cabisbaixo, com a cabeça pelas tabelas e cheio de aflições. E eu acho que essa gente absurdamente amarga vive a nos atrapalhar. E acho que estamos ficando amargos e nos atrapalhando. Sabe, nossas vidas andam meio vazias – sem essa de meio cheia – e já estou cheio de tantos desencontros e incompetência para aproveitar oportunidades.

Eu acho que hoje deveríamos nos perder até amanhã, esquecer essas pessoas tolas que se fingem de boas e esquecer essas pessoas más que não escondem querer nosso mal.

Eu acho que hoje deveríamos esquecer o amanhã e pensar no agora. Você deveria dizer sim pros meus achismos cheios de convicções. Eu acho que devemos nos perder até amanhã cedo. E logo, antes que seja tarde.

Eu acho que você deveria deixar de ser assim tão fria e aproveitar esse calor pra fugirmos pra um lago onde podemos fazer travessuras sem que nos preocupemos com o amanhã e com o inverno. Depois, eu acho que deveríamos seguir os conselhos da sua prima Vera e fugirmos e não voltarmos antes da primavera. E ela acredita que devemos fugir porque não existe amar sozinho.

Você precisa dizer sim pros meus achismos cheios de convicções. Vamos fugir hoje e voltar amanhã. Ou depois. Diz sim. Só vence na vida quem diz sim.

Aqueles que nos apoiam sabem que deveríamos aproveitar essa noite antes que seja tarde. Aqueles que nos apóiam alertam que despertar é bom e que deveríamos aproveitar a distração de todos e dos tolos para fugirmos daqui.

E eu acho que por todas de uma vez devemos juntar nossos sonhos e mundos fantásticos e vivermos o hoje como se o amanhã fosse hoje. E o depois fosse hoje. E o depois de depois também e assim será até que tenhamos conosco o pra sempre.

E eu tenho certeza que você acha todos os meus achismos verdadeiras convicções. E acho que você quer seguir comigo catando as poesias que porventura eu deixar cair. Segurando minha mão que teimará em ficar em meu bolso ou dentro do teu vestido.

E acho que você quer seguir comigo e citar poesias da Rosseane por achá-las apropriadas pra nós dois.

P.s.: “[...] Fique a toda hora
não me importa a tua hora
já que tens tudo de mim,
perto ou longe, sempre ou demais,
tenhas-me aqui, em luz ou escuridão
quero as noites sem fim [...]”
(Rosseane Ribeiro)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Longe aqui!





Sento pra te ligar. Peço uma cajuína e torresmo. Estranho que vendam torresmo em um bar do Palmeiras, algo meio canibal, sei lá. Enfim, falar contigo me deixa em paz. Queria estar contigo, mas não posso agora. Você não atende.

Quase ninguém no bar, o que é bom. Estou em busca de paz, ando com a cabeça pelas tabelas. Mais um telefonema e você não atende. Palmeiras acaba de sofrer um gol. Não entendo porque mantém esse goleiro no time titular. Jurei por Deus, de pés juntos, que não reclamaria mais desse goleiro. Vou cumprir a promessa. Eu acho.

Às vezes lamento a solidão de quem não tem um grande amor. Lamento também minha situação, que também é sua, eu acho. Estamos distantes. Justo agora que mudei tanto, justo agora que meu mundo já não era mais essa coisa feia, triste e comovente como a defesa do Palmeiras quando formada por Deola no gol, Maurício Ramos e Leandro Amaro na zaga e Márcio Araújo no meio. Mais um telefonema e nada. Deve estar dormindo. Queria ouvir tua voz.

Palmeiras acaba de fazer um gol, comemorei discretamente. Talvez comemorasse eufórico se conseguisse falar contigo. “Alôôôôôô, ô me atenda pelo telefone!”.

Desculpas, eu me exaltei.

Estou aqui há mais ou menos uma hora, ligo, você não atende. Gol do Palmeiras. Golaço, aliás. Gol do Luan e passe do Denoni. Acho que ele vai ser o novo Pirlo.

Enfim, ligando pra dizer que estou com saudades, que preciso ouvir tua voz. Pô, sem você, eu tropeço. Sem você eu fico triste. Mais triste do que todos os palmeirenses naquele ano de 2009, quando perdemos um título ganho.

Palmeiras domina o jogo. Mais uma chamada não atendida. Não domino meu nervosismo com o jogo e nem com o fato de você não atender. Deve estar dormindo mesmo. Uma menina na mesa ao lado, alheia ao jogo e ao namorado, que grita feito um louco, começou a cantarolar “bem devagar”, do Gilberto Gil. Acho que é dele. Por um instante me distraí do jogo, dediquei atenção à menina. A música é linda. Se você atendesse ao telefone, diria que “sem correr, bem devagar, a felicidade voltou pra mim, sem perceber, sem suspeitar, o meu coração deixou você surgir”, mas você não atende.

Palmeiras marcou o terceiro e não comemorei e começo achar estranho e melancólico te mandar esse SMS enquanto palmeiristas se abraçam e comemoram eufóricos e eu espero o outro telefone tocar, na esperança de que você retorne a ligação.

A cajuína esquentou, o torresmo esfriou, o jogo acabou e o Palmeiras venceu mais uma, apesar do Deola. E eu te amo a perder de vista.

P.S.: “E como o despertar depois de um sonho mau, eu vi o amor sorrindo em seu olhar. Chegou sem correr, bem devagar.” (Gilberto Gil).

terça-feira, 10 de julho de 2012

Gente, o Palmeiras! (Palmeiras, eu te amo, porra! III)






Gente, o Palmeiras!

Já é terça, quarta é logo ali, a ansiedade toma conta, a tensão toma a atenção. A memória vai se refrescando com alguns momentos importantes de alegrias e tristezas e esperanças. Momentos de calmaria, tensão, medo e esperança. Muita esperança de ver o Palmeiras mais uma vez imponente. Lutando como nunca no gramado, honrando a torcida, a sua história e os jogadores que vestiram sua camisa e fazem parte da sua história.

O momento é de ansiedade. Mas é muito mais de esperança. Os palmeiristas estamos a cada minuto mais certos de que viveremos um grande momento, certos de que uma glória grandiosa nos espera quarta feira.

O momento é incrivelmente eufórico. De esperanças. Sim, a repetição da palavra esperança é proposital. Os palmeiristas estamos esperançosos. Há tempos esperamos por esse momento, há anos sem título nacional, e isso é triste. Muito triste. Quarta feira tudo isso pode mudar. Poderemos conquistar um título nacional, a importante Copa do Brasil. A concretização da conquista dará ao Palmeiras a marca de melhor campanha da história da Copa.

Amanhã há de ser outro dia. De lágrimas de alegria como as do primeiro jogo contra o Grêmio, as do segundo jogo contra o Grêmio. De alegria como as do jogo da semana passada, quando vencemos por dois a zero e ficamos uma mão na taça. Sem as lágrimas de tristeza do jogo contra o Grêmio, pelo Brasileirão, em 2009, o ano que não acabou. Ainda não acabou, pois semana passada nós comemoramos um feliz natal e quarta feira, havemos de comemorar um próspero ano novo e finalmente sairemos desse ano tristemente inesquecível. Ah, Como ficarei insuportável de feliz em caso de título.

Sim, os verbos na primeira pessoa do plural também são propositais. Sabem Deus e os palmeiristas o quanto esperamos por esse momento. Sabem Deus e os palmeiristas o quanto lutamos por esse time, o quanto sofremos, sabem quanta energia positiva temos mandado.

Quarta feira vai ser lindo ver o Felipe Scolari comemorar mais um título pelo nosso alviverde imponente. Vai ser uma coisa beleza. Vai ser uma lindeza ver a torcida palmeirista comemorar mais um título ou, no caso dos mais novos, vê-los comemorar o primeiro título da vida de palmeirense deles.

Quarta feira é logo ali. Seremos felizes, eu sei. Teremos uma glória grandiosa, eu sei. Os palmeiristas sabemos. Mostraremos que, de fato, somos campeões. Será linda a festa.

Quarta feira é logo ali, será dia de Palmeiristas insuportáveis de felizes, dia de um grão de loucura (não confundir grão com grau!), enfim, viveremos dias de alegrias a perder de vista, dias de palmeirense mais feliz do que todas as crianças ricas do planeta.

Aqui é Palmeiras, baralho! Palmeiras, eu te amo, porra!

P.S.: "Defesa que ninguém passa,
linha atacante de raça,
torcida que canta e vibra."
(Hino do Palmeiras)

sábado, 7 de julho de 2012

O Chato





- Está tudo bem, cara?

- Sim, está. Por quê?

- Cê está bebendo sozinho nesse bar. Cê está bebendo Glacial e colocando a mesma música do Eric Clapton há mais ou menos 40 minutos e isso me faz pensar que você não está bem.

- Está tudo bem. Pode deixar.

- Está mesmo? Olha você está com um olhar de quem chorou muito. Mais do que todos os botafoguenses depois daquela final do estadual de 2009 e olha que faltou pouco pro Rio de Janeiro virar uma cidade submersa.

- Mas eu já disse que está tudo bem. Pode deixar.

- Sei não. Essa cara de solidão e desolação faz pensar o contrário. Acho que você não está bem, mas fala que está pra te deixarem em paz. Parece coisa de quem usa a modéstia. Não sei se você sabe, mas esse lance de modéstia é uma mentira, quando uma pessoa vem com modéstia eu já percebo que ela tá querendo um afago. Parece estar implorando pelo elogio que não tem coragem de fazer a si mesmo. Você me dá essa impressão.

- Impressão de quê? Eu só quero beber minha cerveja e ouvir a porcaria dessa música um milhão de vezes. O que você tem contra essa música? Eu gosto dela e quero ouvi-la. E o que é que modéstia tem a ver com isso?

- Mas cê parece triste, é sério. Conheço tristeza de longe, cara. Olha aí, a música vai tocar de novo. Cara, quanto cê gastou nesse jukebox colocando essa música? Tá rico, né moleque? O começo dessa música é engraçado. Mas diz aí tua namorada te deixou foi? Fugiu com outro? Nesse tempo de festa junina as mulheres são danadas pra fugirem com o cara que grita a quadrilha, digo isso porque a Joana – lembra-se dela? – me trocou por um cara que tava gritando quadrilha no bairro.

- Lembro não, mas talvez ela tenha tido algum bom motivo pra te deixar. Ou algum bom motivo pra ficar com outro cara, o que é mais provável. Deve ter se entusiasmado com ele. Sei lá. Essas acontecem, cara. Ah, e minha namorada não me deixou não. Eu nem tenho.

- Sei não! Aí tem coisa. O que te aflige?

- Nesse momento, você e essas perguntas e insinuações bestas, me deixa em paz, mermão. Ah, eu lembro sim quem era Joana e ela disse que ia terminar contigo porque tu és chato pra caramba.

- Precisava falar assim não. Tava aqui de boa, tentando ajudar.

- Desculpa, me exaltei. Mas cê me tirou do sério, cê pode voltar pra sua mesa, por favor?

- Tudo bem, eu volto. Pode ficar aí de boa. Ah! E, por todas de uma vez, quem é Alberta?

- Sei lá. Pergunta pro Eric Clapton, a música é dele.

P.S.: “Sai pra lá, se manca, vê se me esquece, não aguento mais, já tô com stress.” (Só Pra Contrariar).

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Ar





Adoecer empobrece. Essa coisa de taxi e moto-taxi pra voltar pra casa na maior das urgências é de lascar, não tem bolso que aguente. E vejam só, a coisa piora quando se é um estagiário dependente da mesada dos pais.

Voltar pra casa de ônibus depois de uma crise de falta de ar – mais uma, aliás, - é um porre. São cerca de 40 minutos até chegar à minha casa e pegar os remédios, a sensação é de estar correndo em uma esteira tentando abocanhar um pedaço de pão que está a dois metros de distância: desesperador. Por isso o moto-taxi e uma chegada em menos de dez minutos.

Adoecer empobrece porque os remédios são caros. O plano de saúde não deixa de ser caro. Aliás, se eu pudesse dar só uma dica para o futuro, seria esta: tenham plano de saúde.

Depois de tomar os remédios, o ideal seria dormir, descansar, essas coisas, mas não é fácil dormir porque sempre fica o medo de uma nova crise durante o sono. É uma expectativa negativa insuportável. Tão negativa quanto saber que seu time está sob o comando do Vagner Mancini, que escalou o Deola no gol e formou a defesa com Leandro Amaro e Paulo Miranda na zaga e Márcio Araújo no meio com o Daniel Carvalho sendo o meia-armador. Tudo isso em um jogo contra o Barcelona. Desesperador.

Desculpa, me exaltei!

Em pouco mais de dois meses de tratamento para minha garganta e nariz, o progresso parece-me pouco. Teimoso, joguei torneio de futebol na Universidade e a poeira ferrou um pouco meu nariz e minha garganta. Pra piorar, os jogos do Palmeiras que antes me levavam a tomar um remedinho pra pressão – melhor prevenir! – agora atrapalham minha garganta por motivo de gritos.

Segundo os chineses, as crises são geradoras de oportunidade e eu acho que essas crises de falta de ar geraram a oportunidade de cirurgia que o médico assegurou ser feita em último caso. Pelo jeito, estou à beira desse último caso. O que fica futucando a bainha do meu juízo é que não tenho menor idéia sobre o procedimento de uma cirurgia no nariz. Será que colocam uns gnomos no nariz para que façam manutenção nos septos nasais? Não sei, quero saber e tenho gratidão por quem sabe. Amanhã hei de saber.

Ah! Essa semana tem o primeiro jogo da final da copa do Brasil e o Palmeiras jogará e precisarei da minha garganta na mais perfeita. Enfim, quando me virem calado, falando pouco e baixo saberão que estou me guardando pra quando o Palmeiras jogar.

Haaaaaaaaaaaaaaaaaja coração e voz, amigos!

Na verdade, eu tô é com medo de ter que fazer a tal cirurgia, embora saiba que esse medo é besteira. Eu acho. Ou não acho, mas tô dizendo que acho porque preciso me acalmar.

E quer saber? (agora você fala que sim. Disse sim?). Pois bem, acho melhor parar porque esse texto tá ficando estranho e chato.